Capas personalizadas unem técnica e criatividade e transformam livros em edições exclusivas

Manu Zambon
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Gabriella Santos Resende (Foto: Arquivo pessoal)

A capa de um livro diz muito sobre ele e é comum que nosso primeiro contato físico com uma obra seja por meio dela. Hoje, com a evolução de técnicas e tecnologias, as capas ganharam status artísticos e, muitas vezes, são um fator determinante na hora da compra – quem nunca se encantou com uma capa e quis comprar o livro só por causa disso?

Tirando esse capricho do mercado editorial, há também um outro meio de tornar uma capa ainda mais especial: o trabalho personalizado. Essa personalização pode ocorrer por vários motivos; para salvar aquele livro preferido, que está com a capa se desfazendo ou para ter um livro com uma capa exclusiva, demonstrando que aquela história é especial. 

É uma oportunidade para leitores que gostam de ter objetos exclusivos, que remetem a uma determinada obra ou autor, mas também é uma oportunidade de negócio, como é o caso de Gabriella Santos Resende, 32 anos, de Capão da Canoa (RS), que empreende fazendo modificações artísticas em livros. 

De funcionária pública à empreendedora 

Atualmente, a personalização se tornou a principal atividade de Gabriella, que consegue equilibrar o seu lado artístico com a sua veia empreendedora. “O cliente escolhe o livro e eu desenvolvo uma peça totalmente exclusiva. Ao mesmo tempo, mantenho projetos pessoais em andamento, é neles que aprofundo técnicas e exploro novas possibilidades, que depois incorporo ao meu próprio trabalho”. 

Um desses projetos resultou na criação de uma edição limitada de Orgulho e Preconceito e, segundo ela, tem outras ideias que podem se desdobrar em novos formatos além das encomendas.

Trabalho da artista Gabriella Santos
Foto: Arquivo pessoal

Gabriella conta que sua dedicação à atividade começou pelas redes sociais, quando viu uma postagem onde a pessoa arrancava a capa de um livro e transformando essa obra em algo completamente novo. “Eu pensei: acho que eu consigo fazer algo assim, porque sempre gostei de ler e já fazia desenhos inspirados na literatura”. 

Foi assim que a empreendedora começou os seus primeiros projetos. Na época, há cerca de um ano e meio, ela atuava como servidora pública e, embora tenha se dedicado para conseguir a vaga, optou em trabalhar com as capas. 

Gabriella revela que sua especialidade são as capas em relevo revestidas em couro, transformando um desenho plano em algo tridimensional. “Acredito que isso vem muito da arquitetura, que é a minha formação. Aqui a capa deixa de ser só visual e vira uma experiência que você sente também tocando. Tanto que um desejo meu é um dia fazer livros para pessoas com deficiência visual”. 

A artista também trabalha com bordado em tecido, onde explora o lado mais delicado da técnica, com riqueza de cores e mais detalhes. No interior dos livros, ela ainda faz ilustrações 

O valor dos seus projetos depende da complexidade e do nível de personalização, variando de R$ 2.000 a R$ 4.000. Em média, uma capa personalizada demora de três a quatro semanas para ficar pronta. 

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Técnicas de design gráfico

As inspirações de Caroline Dadalto, 31 anos, de Marília (SP), também vieram da internet. “Eu sentia que eu poderia fazer as estampas das capas de livro levando em consideração semiótica, enquadramento e teoria de cores. Porque eu percebia que alguns artesãos gringos, sem generalizar, só saiam fazendo, sem de fato ter uma noção estética. Mas, antes de começar as reformas de livros, eu já sabia costurar livros, pois estudei isso na faculdade de Design Gráfico”. 

Caroline Dadalto (Foto: Arquivo pessoal)

Em novembro de 2024, ela começou a fazer suas produções e a se aperfeiçoar. Durante um ano, ela fez as capas sob encomenda e no final de 2025, por conta de questões relacionadas à saúde, decidiu manter, por enquanto, as reformas mais como um hobby, personalizando as capas somente para amigos ou para ela própria, conciliando com a sua atividade de designer gráfico. 

Caroline cria as estampas do zero no computador, usando técnicas de designer gráfico e hot stamping, imprimindo o desenho e transferindo para uma superfície por meio de calor e pressão. Ela cria a arte a partir de um briefing, levando em consideração as cores que a pessoa mais gosta, as expectativas, personagem favorito, o que motivou a reforma do livro, entre outros detalhes.

“A partir disso, faço uma pesquisa de campo para entender o que os fãs da obra gostam. Além disso, ter estudado arte, história da arte e artes visuais garante que eu consiga utilizar técnicas e estilos de cada parte da história da arte. Por exemplo, no período medieval, prevalecia a arte gótica. Então procuro elementos, fontes, etc, desse período. No final de 1.800 surgiu a art nouveau, no século XX surgiu o cubismo, futurismo, dadaísmo, etc. Dependendo da história, eu procuro elementos que conversem com o cenário que o autor escolheu pro livro”.

Encadernação à tela

Há 10 anos, quando Maria Luiza Zontes de Oliveira tinha apenas 14 anos, ela quis criar um caderno de um programa que gostava muito, mas não encontrava em nenhum lugar. As capas dos livros vieram em 2023, depois que recebeu um pedido de um cliente que queria presentear uma pessoa querida.

Atualmente, Maria, que é de Belém (PA) e reside em Jacareí (SP), vive exclusivamente da atividade de encadernação artística e personalização de livros, se tornando uma grande referência no assunto. 

Foto: Arquivo pessoal

Maria trabalha com uma técnica que desenvolveu chamada encadernação à tela, que combina encadernação artesanal com pintura artística. “Utilizo pintura em acrílica, aquarela, grafite e caneta, além de técnicas aplicadas nas folhas de guarda e nos cortes do livro, como pintura e outros acabamentos. Tudo é feito manualmente, desde a estrutura até os detalhes finais”.

Para as encomendas dos clientes, Maria explica que o primeiro passo do trabalho é entender com profundidade o pedido do cliente, a relação dele com o livro, referências visuais, sentimentos que ele quer transmitir. “A partir disso, faço uma pesquisa sobre o universo da obra, elementos simbólicos, estética e composição. Levo muito em consideração a história, o significado e a experiência que aquela peça precisa gerar”.

Um dos trabalhos mais marcantes foi a personalização da obra Os Miseráveis, de Victor Hugo, a saga de Harry Potter, de J. K. Rowling e It, de Stephen King. “It foi um dos mais complexos tecnicamente, por envolver várias técnicas diferentes como acrílica, aquarela, grafite e canetado”.

Em média, cada projeto de Maria leva de dois a três meses para ser finalizado, dependendo da complexidade. 

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