“Alta” cultura versus cultura “popular”: a crítica como desprezo

Redação
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Foto: Divulgação

Começo este artigo falando sobre um padrão que insiste em se repetir. E sim, é óbvio que, como viciada na Tetralogia Napolitana que sou, precisava escrever as minhas impressões sobre o caso Édouard Louis versus Elena Ferrante. Seria alta cultura versus cultura popular? E já aviso que não serei imparcial, pois acredito que “os que não têm lado agonizam na antessala do mal”, um resumo moderno de um dos cantos da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

E falo mais: se escrevo um artigo de opinião, é justamente para dizer o que penso, um open bar de divagações. Resumindo: meses atrás, em uma entrevista, o escritor francês Édouard Louis viralizou, pois, entre uma opinião e outra sobre vários temas, o autor de obras como Quem matou meu pai e Mudar: Método disse que acreditava que livros ruins, como os de Elena Ferrante, têm o direito de existir, e que ela estaria escrevendo romances para adolescentes.

Então me pergunto: qual foi o critério utilizado para classificar essas obras como ruins? “Romances para adolescentes”? Aqui, o que chamou a atenção foi, digamos, o tom. A crítica não se apoiou em critérios como estrutura, estilo ou narrativa. Isso teria sido uma forma de desvendar um dos grandes fenômenos literários dos nossos tempos? Será que ele compreendeu toda a questão social, cultural e psicológica que envolve a trama?

Mas ok, vamos com calma e colocar os personagens em seus devidos lugares. Louis pertence a uma tradição intelectual francesa marcada por teorias, e sua obra dialoga com nada menos que Pierre Bourdieu, o que é brilhante. Ele fala sobre violências cotidianas, em suas diversas formas, sejam simbólicas, emocionais ou físicas. Escreve, de fato, para incomodar, gerar choque e desconforto. Agora vem o “mas”, porque, como na trama emocional de Elena Ferrante, também há origem, classe e transformação.

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Acontece que, há muito tempo, aquilo que alcança o grande público é visto, por grupos específicos, com certo desprezo, quase como um ato de distinção social. A rejeição de fenômenos culturais como Elena Ferrante funcionaria, então, como a preservação de uma hierarquia entre aqueles que chamamos de intelectuais. Obras amplamente amadas são, não raro, desqualificadas por determinados círculos. Já aconteceu com nomes como Alexandre Dumas, Charles Dickens e, fora da literatura, com The Beatles.

Todos eles levaram tempo para serem reconhecidos como grandes pelas vozes da alta cultura, justamente porque, antes de tudo, conquistaram o gosto popular. Penso que ter desclassificado a obra de Elena Ferrante dessa maneira foi algo pequeno diante da grandeza de um escritor como Édouard Louis. A crítica, nesse caso, pareceu menos um exercício de análise formal e mais um gesto de distinção.

E foi impossível não me vir à cabeça o dito por Susan Sontag, escritora e ativista de direitos humanos, de que, se um dia tivesse que escolher entre The Doors (cultura “popular”) e Fiódor Dostoiévski (cultura “erudita”), claro que escolheria Dostoiévski. Mas por que ter que escolher? E, se as escolhas forem feitas, que não desmereçam. Até porque esse ato de desmerecer vai totalmente contra o papel importante desempenhado pela literatura, que não existe para diminuir, muito menos para desprezar.

Foto: Arquivo pessoal

Carolina Cerqueira Cruz é historiadora e advogada. Mestre em Direito Internacional e Relações Internacionais. Doutoranda em História do Direito. Viveu cinco anos em Lisboa . Um coração que gosta de dançar pelo mundo.

*O conteúdo e as opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do(a) autor(a) e não correspondem, necessariamente, à linha editorial do veículo.

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