A ilustradora e quadrinista coreano-brasileira Ing Lee, inspirada no irmão caçula, João, diagnosticado com autismo, transformou sua convivência com ele na HQ João pé-de-feijão, lançada em março pela VR Editora.
Na obra, a autora conduz o leitor por memórias do cotidiano familiar, que vão desde a dúvida sobre o desenvolvimento da fala do irmão, que surpreendeu a todos quando sua primeira palavra foi “urso”, até episódios cômicos, como a vez em que cumprimentou algumas senhoras com um espontâneo “olá, pessoas velhas”.
Entre descobertas, incertezas e pequenas aventuras do dia a dia, a história revela como todos foram, pouco a pouco, aprendendo a compreender João para além de expectativas e rótulos.
Com traço expressivo e delicado, Ing Lee constrói uma história marcada por ternura e observação do cotidiano. Surda oralizada, a autora também traz para a obra sua própria experiência como pessoa com deficiência, ampliando a narrativa com um olhar atento à empatia e à diversidade.
Uma criança é um ‘quadro em branco’, em que os pais depositam suas expectativas
sobre como ela será quando crescer. Quase sempre, a possibilidade de uma
deficiência é um temor – jamais uma expectativa positiva. E, ao longo dos anos,
nós fomos entendendo que o autismo não define o João enquanto pessoa.
(João pé-de-feijão, p. 21)
Evolução
Conforme percorre as páginas, o leitor acompanha aspectos da evolução do menino, desde as formas particulares de comunicação até interesses e descobertas. Entre eles, o gosto pelo desenho, que se tornou um ponto de conexão entre os irmãos. A quadrinista relata, por exemplo, que, sempre que o irmão a visita, faz questão de deixar papéis e outros materiais disponíveis para que ele possa desenhar livremente. Quando estão distantes, recebe por meio do WhatsApp da mãe as imagens das ilustrações criadas por João (duas delas, inclusive, já foram eternizadas em sua pele).
O crescimento, cheio de descobertas e caminhos próprios, também está representado no próprio título da obra. Em referência à história da fábula de João e o pé de feijão, a planta surge como metáfora para acompanhar o desenvolvimento do menino ao longo do tempo.


Na história em quadrinho, porém, não se trata de alcançar castelos nas nuvens ou atender a expectativas externas, mas de observar como cada etapa acontece em seu próprio ritmo, com contornos e particularidades que tornam essa trajetória única.
A sensibilidade da narrativa está representada nos traços de Ing Lee pela obra. Com linhas expressivas e delicadas, a autora constrói cenas que equilibram humor, ternura e observação do cotidiano, traduzindo visualmente as emoções e pequenas situações que marcam a convivência entre os irmãos.
Outro diferencial da obra é o ponto de vista fraterno. Em vez de uma abordagem centrada na experiência dos pais, a história apresenta o autismo a partir da relação entre irmãos, marcada por cumplicidade, aprendizado e pelo ponto de vista de quem acompanhou João desde o nascimento.
Sobre Ing Lee
A autora é nascida em Belo Horizonte (MG) e bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federak de Minas Gerais (UFMG). Atualmente reside em São Paulo (SP). Foi vencedora do Prêmio Jovens Talentos de 2024, promovido pelo PublishNews em parceria com a Feira do Livro de Frankfurt. Com isso, se tornou a primeira capista do mercado editorial a receber o prêmio.
Ing Lee também foi convidada do FIQ 2022 e da Bienal de Quadrinhos de Curitiba em 2022 e 2025. Em 2022, fez parte do júri do Prêmio João-de-barro, na categoria Livro Ilustrado.

Serviço
João pé-de-feijão – Ing Lee
VR Editora
Idade recomendada: A partir de 9 anos
Número de páginas: 112
Onde encontrar: Amazon
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