Nascida no interior paraibano, a escritora Jadna Alana carrega na sua escrita as marcas de uma origem que, com o tempo, passou a ser impossível de ignorar. Com uma carreira em ascensão, a autora venceu a 10ª edição do Prêmio Kindle com a obra Barquinho de Papel.
Barquinho de Papel já havia ganho o edital Carolina Maria de Jesus e sua outra obra, Se tu me quisesse, foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura de 2022 e do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica, em 2023. Jadna ainda ganhou o Prêmio Marilia Arnaud com o conto O menino de Imburana.
Jadna aposta em uma trajetória pautada pela mesma matéria que sustenta sua literatura. Entre páginas, palavras, construções de personagem, narrativas e muito mais, o real e o fantástico se entrelaçam. No coração dessa união, está um conceito que a própria Jadna ajudou a nomear e difundir: o regionalismo fantástico.
Jadna Alana é formada em letras pela Universidade Estadual da Paraíba e mestre em linguagem pela UFOP(Universidade Federal de Ouro Preto). É cofundadora da marca editorial ALCE, onde ministra um curso de regionalismo fantástico.
Mesmo com uma rotina cheia de compromissos, Jadna aceitou dar uma entrevista ao LiterAll para falar das suas inspirações, carreira, expectativas e muito mais.
Suas origens
“Hoje em dia, o meu lugar, o meu estado, as minhas origens, estão totalmente vinculadas à minha escrita literária, ao lugar de crítica social mesmo, de perceber o lugar de onde a gente vem como um espaço muito capaz de abraçar a literatura fantástica, por exemplo”, diz a autora.
Jadna vem de uma família humilde, de pessoas não letradas, e essa realidade é um norte atual das suas obras. Para ela, é inevitável olhar para essa realidade e não ancorar sua escrita na crítica social e identidade.
Mas nem sempre foi assim. A autora conta que começou a escrever em 2016; no início, ela apostava em narrativas mais fantasiosas e distantes da realidade concreta. Foi apenas por volta de 2020 que o imaginário passou a dialogar diretamente com o território de onde veio.
Hoje, sua produção literária não abre mão dessas vivências e assume um compromisso de dar voz às histórias que, muitas vezes, ficam à margem. “Eu trago essa realidade, muitas vezes trazendo outras perspectivas para essas vivências. Recentemente, tenho ido ainda mais no cerne da coisa e buscado transpor para minha escrita histórias que eu vivi na vida real, inspiradas na minha vivência, na vivência da minha mãe, dos meus familiares”, relata.
Jadna observa que, como seus familiares não chegaram onde ela chegou, no sentido acadêmico e até geográfico, ela sente esse anseio de contar a história deles. “Eu quero ser a voz que vai falar, e que vai contar sobre o mundo de onde eu venho, quem são as pessoas que me formam hoje como indivíduo. Como pessoa e por consequência como escritora também.”
E surge o regionalismo fantástico
Foi nesse processo de aproximação com suas raízes que surgiu o conceito de regionalismo fantástico. Inspirada por tradições como o regionalismo de autores como Graciliano Ramos e Jorge Amado, e em diálogo com o realismo mágico de Gabriel García Márquez, Jadna decidiu investigar aquilo que já praticava intuitivamente.
Durante o mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto, entre 2023 e 2025, ela sistematizou o conceito, definindo suas bases teóricas. “Se não existia, eu queria que passasse a existir”, resume.
Diferente do realismo mágico latino-americano, o regionalismo fantástico, segundo a autora, é profundamente brasileiro e marcado pelo interior do País. Nele, o fantástico não é apenas sugestão ou metáfora: é concreto, estruturado, regido por regras próprias dentro da narrativa.
Fantástico como ferramenta política
De forma equivocada, leitores distraídos podem achar que o fantástico nas obras é uma forma de escapismo do real. Porém, para Jadna, o regionalismo fantástico funciona como uma lente potente para interpretar a realidade. Em sua visão, elementos fantásticos permitem traduzir experiências e violências que, muitas vezes, a linguagem realista não dá conta de expressar.
Essa perspectiva também orienta sua relação com premiações literárias. Para ela, prêmios são termômetros culturais e políticos. Indicam não apenas quem está sendo lido, mas quais narrativas estão sendo legitimadas em determinado momento histórico.
“Uso o fantástico como uma ferramenta de crítica social, muitas vezes mais potente do que uma linguagem crua e realista poderia passar. Então, quando eu decido me colocar nessas premiações como obra de regionalismo fantástico, é para mostrar esse poder que não só o gênero tem, mas que a literatura brasileira tem”.
Barquinho de Papel
A obra, que rendeu à Jadna o Prêmio Kindle, Barquinho de Papel, nasce de uma travessia pessoal. Ao deixar a Paraíba para cursar o mestrado em Minas Gerais, Jadna vivenciou o deslocamento físico e emocional que daria origem à narrativa.
O livro acompanha Jurema, uma menina do interior da Bahia que constrói um barquinho de papel para descobrir o que existe além do horizonte. A metáfora dialoga diretamente com a experiência da autora: sair de casa, enfrentar o desconhecido e, ao mesmo tempo, preservar as próprias raízes.
“Eu diria que talvez seja o meu livro mais poético, se aproxima mais de uma prosa poética do que todos que eu já escrevi. Porque eu estava muito imersa nesse sentimento de partida, nesse sentimento melancólico, de deixar, de ir. Então, eu lembro que o último capítulo, quando eu escrevi, eu estava assim, aos prantos, porque é o momento final em que a Jurema está se despedindo do lugar dela”.
A vitória no Prêmio Kindle também marca uma virada concreta na carreira da autora. A possibilidade de ver o próprio livro nas prateleiras ainda parece difícil de assimilar. “Tenho 10 anos de carreira e vai ser a primeira vez que eu vou ter a oportunidade de lançar numa grande editora e vai poder circular Brasil afora, ser distribuído em vários cantos. Eu nunca entrei numa livraria e encontrei um livro meu lá. Acho que todo escritor sonha muito com esse dia”.
O livro Barquinho de Papel atualmente está disponível para assinantes Kindle Unlimited, no site da Amazon, mas será publicado pelo Grupo Editorial Record e terá uma edição especial para assinantes da TAG e uma adaptação para audiolivro pela Audible.



