Tudo era calmo e tranquilo naquela família, até que a filha decidiu que precisava comprar um poeta. Adquirir uma pessoa que faz rimas com palavras? A ideia pode soar absurda em nossos dias. Os homens, que outrora enriqueceram vendendo seus semelhantes para serem escravizados, agora comercializam humanos que fazem poesia.
Mas no mundo de Vamos Comprar um Poeta do escritor português Afonso Cruz, isso é possível.
O argumento contra a compra teve como ponto central a falta de utilidade do poeta. Mas a aquisição aconteceu, para a felicidade daquela criança, da minha e de todos que tiveram o privilégio de acompanhar as linhas que seguem nesse manifesto em forma de romance.
O escritor luso, em entrevista, ao falar do processo criativo dessa obra pequena em número de páginas, mas gigante em lições, teve como ponto de partida a extinção do Ministério da Cultura em Portugal, em 2011, durante uma crise econômica. O que deixou a mensagem oculta de que cultura seria “inútil”.
Sobre a comercialização dos artistas, ele declarou que teve como inspiração o histórico inglês em que aristocratas “compravam” sábios hindus para entreter os convidados que passassem por seus jardins.
O poeta escrevia, questionava e observava atentamente todos na casa. Falava por meio de seus versos, mas não produzia nenhum lucro quantificável. Ao contrário, gerava despesas. Vimos, então, escancarada diante de nós, uma sociedade que mede o valor das pessoas e das coisas pelo lucro que podem gerar. Perde-se, assim, a capacidade de reconhecer o valor de algo como a poesia.
E, pior: aquilo que não traz vantagens passa a ser considerado descartável. Por isso, surgiu a decisão prática: se livrar do poeta. Nesse momento, ao desfazer-se daquilo que não possui utilidade ou gera lucro, chamo a atenção para os dados da pesquisa realizada pela BBC Brasil, que nos mostra os livros mais vendidos no ano de 2025 no Brasil, dos quais, de uma lista de 10, apenas 3 são ficção e, mais: figuram na posição final dessa lista, em que, como campeões, vemos livros para colorir, religiosos e de orientações financeiras.
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Para os meus olhos, esse ranking mostra um mundo como o das linhas de Afonso Cruz; aqui, no nosso Brasil, parece que a leitura precisou ter uma utilidade prática. E, nesse contexto, fica impossível não lembrar de A Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, onde a ficção é deixada para o último momento, pois não contribui para o desempenho. A arte pela arte perde a vez, onde a produção é vista como o mais importante.
Que realidade é essa em que livros precisam justificar a sua utilidade? Aquela que precisa conhecer Vamos Comprar um Poeta. Em muitos momentos da história a cultura sangrou: livros foram queimados, escritores presos e a poesia considerada inútil.
Não é segredo que um dos atalhos para o domínio de uma sociedade é atacar aquilo que faz as pessoas pensarem, questionarem e desenvolverem o pensamento crítico. A arte e literatura sempre foram alvos porque, além de fazerem pensar, são elas que nos ajudam a imaginar que é possível existir um mundo melhor.
Estou com a poetisa Matilde Campilho: a arte pode não salvar a vida, como um cirurgião, mas salva o minuto, e isso já é suficiente. São tantas as ideias, reflexões, corações, viagens e sonhos. Por isso, faço aqui um apelo: mais do que comprar, vamos salvar os nossos poetas, pois só assim poderemos salvar os nossos minutos.

Carolina Cerqueira Cruz é historiadora e advogada. Mestre em Direito Internacional e Relações Internacionais. Doutoranda em História do Direito. Viveu cinco anos em Lisboa . Um coração que gosta de dançar pelo mundo.
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