O dilema e a força da poesia em tempos de IA

Redação
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Arte: LiterAll/Divulgação

A poesia é o ar que eu respiro. Escrevi certa vez este verso, que compõe a obra poética “Coisas que eu tinha pra dizer e não disse”, e hoje me deparei refletindo sobre ele. A coisa mais linda do ser humano é a capacidade de sentir. O poeta busca transformar sentimentos em palavras e traduzir emoções em versos visando embelezar a vida, ainda que a realidade esteja impregnada de dor e escuridão. A poesia é o sol depois da lua, a luz depois da noite, o arco-íris depois da chuva – é a busca de sentido. No entanto, faz sentido falar em criação poética como expressão essencialmente humana num mundo de IA? Talvez nunca tenha sido tão urgente refletir sobre isso.

A inteligência artificial, sem dúvida, impressiona. Ela reconhece padrões, imita estilos e organiza palavras com eficiência. No papel, o resultado pode soar como poesia, mas a poesia nunca foi apenas forma, nunca foi apenas técnica ou estética, poesia é essência; nasce daquilo que não pode ser automatizado: a experiência.

Um poema verdadeiro carrega memória. Carrega dor, amor, ausência, saudade. Ele nasce de vivências (reais ou imaginadas) que atravessam o ser humano e encontram, na linguagem, uma tentativa de expressão. Nem tudo pode ser traduzido, por isso é uma tentativa de traduzir aquilo que se sente ou que foi sentido. A máquina não sente; ela estrutura versos sem ter vivência daquilo que foi escrito. Não transforma silêncio em palavra porque não conhece o peso do que nunca foi dito.

Antigamente, escrever poesia exigia busca e esforço, era quase um rito silencioso. Havia uma espera, um intervalo entre sentir e dizer. Ouvíamos música para se inspirar. A palavra não vinha pronta, ela era perseguida. Procurávamos rimas em dicionários, experimentávamos combinações, errávamos e reescrevíamos. Hoje, a velocidade substitui o processo.

Basta um comando para que a IA crie tudo “sozinha”.  Diante disso, a pergunta não é apenas se ainda criamos, mas se ainda nos permitimos sentir antes de criar. Devemos, ou não, deixar que a tecnologia ocupe um espaço que sempre pertenceu à sensibilidade humana?

A verdade é que vivemos um tempo de excessos: excesso de palavras, de opiniões, de respostas prontas. Nunca se escreveu tanto, e talvez nunca se tenha escutado tão pouco. As redes sociais transformaram a linguagem em urgência, e o sentir em reação. Tudo precisa ser imediato, consumível, breve. E é justamente nesse cenário que a poesia resiste – quase como um ato de desobediência.

A poesia exige permanência. Ela não se entrega à pressa. Ela pede silêncio, pausa, presença. Enquanto a tecnologia busca eficiência, a poesia busca profundidade. Enquanto os algoritmos organizam, o poema rompe certezas e, na sua essência, a poesia cura ao dar forma ao que dói. Ela salva, pois nos devolve ao que somos: humanos.

Não se trata de rejeitar a inteligência artificial, mas de compreender o seu lugar. A tecnologia pode ser ferramenta, ponte, até inspiração, mas não pode ser origem. Porque a origem da poesia não está na palavra, está no que antecede a palavra. Está naquilo que dói, que falta, que transborda.

Se delegamos à máquina o ato de criar, corremos o risco de nos afastarmos de nós mesmos. De trocar o processo pela facilidade, a experiência pela simulação. E, nesse caminho, perder não apenas a poesia, mas a capacidade de nos reconhecermos nela.

*Le Savoldi é escritora, poeta, professora e mestre em Educação e autora do livro “Coisas que eu tinha pra dizer e não disse”

*O conteúdo e as opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do(a) autor(a) e não correspondem, necessariamente, à linha editorial do veículo.

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