Entre monitores, hadsets, controles e universos tecnológicos dos jogos, um espaço bem mais tranquilo e analógico, por assim dizer, chama a atenção na game house WD, localizada em Itatiaia (RJ). Uma sala de leitura recebe crianças e jovens que querem jogar, mas não têm dinheiro para pagar pelo serviço.
William Silva Santos, proprietário do estabelecimento, percebeu que muitas crianças iam até o local para jogar, mas não possuíam recursos financeiros para desfrutar dos jogos online. Por não terem como pagar – o valor é R$ 4,00 por hora – ficavam só olhando os demais. “Eu passei por isso na minha infância. Eu já estive no lugar dessas crianças. Frequentava muita game house, muita lan house, porém sem o recurso para jogar”, lembra.
Foi assim que ele viu a necessidade de criar alguma ação que incluísse todos, sem afetar tanto o seu negócio. “Porque eu pensei assim: se eu deixar um jogar de graça, eles vão espalhar para os outros e todos vão querer jogar de graça. Ou seja, prejudicaria a game house e eu não teria recurso financeiro para manter”.
Então surgiu uma ideia: por que não transformar a literatura em uma moeda de troca? Hoje, quase dois anos depois, o empreendedor pode falar que a iniciativa, que nomeou de Troca da Hora, deu certo. O projeto é simples, mas eficaz: meia-hora de leitura equivale a uma hora gratuita de jogo. Assim que finaliza a leitura, o jogador – ou seria o leitor? – faz um resumo do que entendeu sobre o livro.
Quando a criança ainda não sabe ler, o adulto que está acompanhando pode fazer a leitura para ela.
Doações
No começo, ele usou os próprios livros, organizou melhor a biblioteca que ele já tinha no espaço e começou a oferecer histórias para trocar por jogos. Com o tempo, ele foi recebendo doações de obras, feitas pela própria comunidade e seguidores da rede social da game house, e organizando melhor a sala de leitura.
“Eu mesmo fui fazendo as coisas, criando tudo que precisava. Não recebo nenhum tipo de ajuda do governo, mas é porque eu não quero mesmo. Às vezes uma família de uma criança está precisando de uma cesta básica, por exemplo, então eu mesmo ajudo.”
Santos destaca que os livros não podem ser levados para casa. A leitura tem que ser feita no próprio espaço. Por conta do uso de hadsets, não há problema com barulho. Os leitores gamers conseguem, no ambiente silencioso, se concentrarem melhor nas histórias.
Construindo leitores
Após iniciar o projeto, a adesão foi imediata. No começo, o interesse surgiu para ter acesso aos jogos. Mas Santos percebeu que várias crianças e jovens criaram o hábito de procurar a leitura assim que chegam na game house.
“Tem uma pequena parte das crianças e adolescentes, uns dois ou três, que chegam na game house e já perguntam: ‘William, tem livro novo aí para mim?’. Eles não chegam perguntando do jogo. Perguntam sobre a leitura. Creio que, futuramente, eles vão procurar a leitura sem precisar trocar por tempo de jogo. Vão procurar porque gostam.








