Acabo de terminar Tempo de Graça, Tempo de Dor, da autora Frances de Pontes Peebles, publicado em 2019 pela Editora Arqueiro. Se alguém me perguntar qual livro não tem a fama que merece, sem dúvida minha resposta apontará para esse título. Por isso, mesmo meio paralisada com o fim desse baita romance e com medo de tentar tensionar as cordas do meu cérebro, e não produzir o som ideal com essa vibração, tal qual um violão, vale o risco.
Essa analogia sobre a música não surgiu por um acaso e resume o maior tema que atravessa essa obra de arte e vai se alojar num espaço bem grande na nossa mente. Li o livro, e muitas vezes, me peguei ouvindo um samba imaginário durante a narrativa.
O livro parte de 1930 e traz duas personagens principais, Maria das Graças, filha mimada da família Pimentel, que é proprietária do engenho Riacho Doce, e Maria das Dores, nascida na miséria e órfã – simples assim.
Das Dores aprende a trabalhar na cozinha desde cedo, criada por Nena, a cozinheira da casa grande. Porém, tudo muda de perspectiva após a chegada da família, e consequentemente de Graça, a esse engenho. Das Dores passa a conviver com a menina rica como se fosse sua ama particular, criando laços de amizade, mas sempre sendo colocada no “lugar dela”.
Um acontecimento no engenho faz com que as meninas sejam mandadas para um internato de freiras, no Rio de Janeiro. Depois de um tempo (olha o spoiler) estudando nesse local, e sofrendo com o rigor das irmãs, elas conseguem fugir e, a partir daí, se aventuram pela Lapa, na capital carioca.
Graça e das Dores conseguem sobreviver por meio de trabalhos precários. Mesmo com as dificuldades, ambas cultivavam um sonho em comum: tornarem-se cantoras. Conforme essa realização vai acontecendo, Graça vai ganhando um contorno familiar para nós, brasileiros. Eu conseguia ver um pouco de Elis Regina e Carmem Miranda, até chegar à cantora que realmente inspirou essa personagem. Qual será?
Além da artista, outra figura aparece por meio da personagem Madame Lúcifer. Pegou a referência? Diversas vezes, me vi deixando o livro um pouco de lado para pesquisar alguma coisa e ver se tinha relação com a realidade.
O livro, mesmo sendo ficção, nos coloca, de forma sensível e inteligente, diante da própria história do samba e, mais tarde, da bossa nova. Entre conflitos, atitudes duvidosas, amor, amizade, fama e muitas ambições, a obra se descortina diante de nós, se revelando como um show improvisado e amador na Lapa e, mais tarde, como um set de filmagens norte-americano, onde Graça e o Bando da Lua Azul faziam participações.
Especialmente para nós, brasileiros, é um deleite ver tantas referências culturais e históricas nas páginas. Costurando tudo isso, está a narrativa magistral de Frances, que também é autora de Entre irmãs (originalmente publicado sob o título A Costureira e o Cangaceiro), traduzido para nove idiomas e ganhador dos prêmios Elle Grand Prix for Fiction, Friends of American Writers Award e Michener-Copernicus Fellowship.
Em tempo, é importante dizer: Frances é pernambucana, mas foi criada em Miami, na Flórida. É formada em Letras pela Universidade do Texas, em Austin e, em 2003, completou o famoso Iowa Writhers´ Workshop. Em 2009, a escritora voltou ao Brasil para cuidar da família e em 2012 se mudou para os Estados Unidos com o marido e a filha.
Por fim, vamos ao começo: a capa do livro. Ali, encontramos uma citação curiosa retirada de uma crítica publicada no The Oprah Magazine. Diz assim: “Ecos de Elena Ferrante ressoam nesta saga esplêndida”. Dito isso, quem mergulhou na tetralogia napolitana, certamente vai entender a dualidade na relação de Graça e das Dores, ora desfrutando da graciosidade das duas, torcendo por elas, em muitos sentidos, ora sem saber de que lado ficar. Mas, vale dizer, elas escolheram a música. E nada mais!

Manu Zambon é jornalista há 19 anos, empreendedora da área da comunicação e criadora do site LiterAll – Tudo sobre Literatura. Fundou o clube de leitura Sociedade do Livro.
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