“Essa história traz à tona nossa violência, nossas imundícies escondidas, nossos traumas adormecidos, nossos silêncios e nossas fugas. Ela é o reflexo brutal da dominação e da violência que ainda estruturam nossa sociedade.”, diz Gisèle Pelicot, em Um hino à vida, que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras.
Em 2020, a francesa, então com 68 anos, ficou conhecida por sua história pautada por violência e coragem. Convocada para comparecer à delegacia acompanhando o marido, Dominique, que havia sido flagrado filmando por baixo da saia de mulheres em um supermercado, ela soube ali, naquele momento, que era estuprada pelo parceiro e outros homens.
A história veio à tona durante a investigação, quando os oficiais encontraram um acervo de fotos e vídeos em que Dominique e outros homens estupravam uma mulher inconsciente. No caso, sem acreditar no que via, ela mesma se reconheceu naqueles registros. Por mais de uma década, ela vinha sendo sedada por remédios e abusada enquanto estava desacordada.
A revelação a desestruturou por completo: como o companheiro de cinco décadas, pai de seus três filhos, fora capaz de tamanha atrocidade?
Era o início de um longo processo judicial, que tornaria Gisèle um símbolo internacional de coragem e da defesa da dignidade das mulheres. Durante o julgamento, no qual renunciou ao seu direito ao anonimato, ela clamou que “a vergonha precisava mudar de lado”, insistindo que a sociedade repreenda os algozes dos crimes, e não suas vítimas.
Autobiografia e manifesto
Em Um hino à vida, Gisèle conta sua história pela primeira vez. Numa linha narrativa, acompanhamos sua infância no interior da França, seu encontro com Dominique, os anos de casamento e criação dos filhos, a chegada dos netos e a vontade de desfrutar a aposentadoria. Em um outro momento, a narrativa aborda o turbilhão em que se viu lançada desde que recebeu a fatídica ligação da polícia, até a preparação para o tribunal e o doloroso processo de aceitação e cura de seus traumas.
Mesmo contra todas as probabilidades, o que vemos neste misto de autobiografia e manifesto é uma Gisèle que renasceu com bravura e reverência pela própria vida, disposta, com seu depoimento, a encorajar outras pessoas em situações difíceis.
Serviço

Um hino à vida– Gisèle Pelicot
Editora: Companhia das Letras
208 páginas
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