Ao longo dos últimos meses, a escritora e historiadora Jessica Stori cruzou as ruas de Uberaba, bairro de Curitiba (PR) onde cresceu, e Pinhais, cidade da mesma região metropolitana, para capturar imagens, gravar vídeos e investigar esses territórios.
A intenção era buscar matérias-primas para a criação de uma literatura ambientada entre os dois espaços. Essa pesquisa de campo foi um dos propulsores para o desenvolvimento de Foi um jeito de derreter, da Telaranha Edições. A obra está disponível no site da livraria Telaranha.
O livro, lançado em julho, é o coração de um projeto transdisciplinar, selecionado e apoiado pelo edital Rumos 2023-2024 do Itaú Cultural. Nele, Jessica utiliza escrita e imagem para contar uma história sobre o cuidado em situações de vulnerabilidades física, emocional e social através de uma relação de vigília entre duas pessoas, Marta e Lorena, dois corpos concentrados um no outro, um deles acometido por uma doença, enquanto o outro se mantém em movimento e atento ao corpo doente.
Cenários e populações
Segundo a autora, o processo criativo do projeto, baseado nas andanças por Uberaba e Pinhais, fora do Centro de Curitiba, é também uma tentativa de mostrar um Sul diferente daquele presente no imaginário popular, mais precisamente um Paraná com cenários e populações que correm pelos contornos das fronteiras imaginadas e materializadas através de políticas de marginalização, mas um espaço de experiências inventivas. “Quero levar o bairro onde eu cresci para a literatura.”
Em Foi um jeito de derreter, a narradora e protagonista não via Marta há dois anos, mas recebe a notícia de seu adoecimento. Ao ser informada da urgência em ir a seu auxílio, ela encontra uma casa abandonada e Marta em condições de vulnerabilidade. A protagonista passa a viver uma rotina de cuidados e a se deparar com assombros que trazem à tona vestígios do passado vivido pelas duas personagens.
Ainda, para a autora, foi importante falar das relações de cuidado sem necessariamente se voltar à palavra família. “Quis encontrar na escrita e em outras linguagens, os dias de atenção e de obrigação, de memória e de trauma, de delírio e de realidade, de saúde e de doença, cavando nos meandros destes nomes maneiras de escrever o que acontece entre eles em situações como essa”, relata.

Para narrar essa trama, Jessica compôs uma prosa poética que brinca com a polifonia, transitando pela voz da narradora, as de outras personagens, além de descrições de documentos. A partir dessa pluralidade de linguagens, a novela lança um olhar para os corpos de quem cuida, de quem é cuidado, um convívio estabelecido não só por vínculos familiares, mas até mesmo por obrigações culturais e legais.
“No entanto, esse cuidado – isto é, um trabalho muitas vezes não remunerado e feito por mulheres em sua maioria – se dá em condições emocionais e sociais nem sempre consideradas, como a exigência de se estar diante de uma pessoa que não se tem intimidade ou que pode ter cometido alguma violência no passado. O acúmulo da experiência de uma relação está incrustado nessa ação do cuidado”, afirma a escritora.
Processo criativo
O edital Rumos 2023-2024 do Itaú Cultural, que apoiou o desenvolvimento do projeto de Jessica, teve como foco a criação artística. Dos 9.389 inscritos, selecionou 100 trabalhos de diferentes linguagens pelo Brasil, apenas 10 de literatura, entre eles Foi um jeito de derreter.
Paralelamente às investigações por Uberaba e Pinhais, Jessica conciliou a prática da escrita literária com a pesquisa em arquivos pessoais e a criação de vídeos-ensaios sobre autoria e temáticas do livro.
Embora o trabalho mais intenso com o projeto tenha sido realizado pela autora após a seleção no edital, a ideia da escrita da novela surgiu em 2019, quando Jessica se deparou com uma experiência semelhante à da narradora: parar a vida para se concentrar no cuidado de outra pessoa.
Após a aprovação no edital, em 2024, Jessica regressou aos escritos iniciados em 2019, mas percebeu que a voz daquele texto inicial já não dialogava com a narrativa que gostaria de escrever, com um pouco mais de crueza, por isso, manteve a ideia inicial, suas personagens, mas começou a desenvolver uma segunda versão.
Para ela, reunir diferentes linguagens durante o processo de criação do projeto lhe possibilitou ainda gravar fotografias e elementos visuais que não queria perder de vista, assim como criar novas imagens, modificando o material capturado por meio do recorte, da colagem e da edição como uma maneira de investigar os espaços, as personagens e os lugares da história, além de colocá-los em outros contextos pela possibilidade de torcer, revê-los por outra perspectiva, ou seja, fazer um gesto de ficção com imagens.
Sobre a autora
Embora a novela seja a estreia de Jessica na prosa ficcional, Foi um jeito de derreter é a segunda publicação autoral da escritora, que lançou em 2020, o livro de poesia Carne e colapso pela editora Urutau. Integrante do Coletivo Membrana Literária, participa de três publicações coletivas da grupa: zine Corja!, zine BRA_IL e a antologia Chão Brasil.
Na pesquisa, como historiadora, Jessica desenvolve trabalhos na área de História e Estudos de Gênero sobre a produção literária, artística e intelectual de mulheres. É doutora em História pela Universidade Federal do Paraná, com a tese “Fazer da vida a máxima poesia: escrita, pensamento e ação na trajetória de Simone Weil” (Prêmio Excelência Acadêmica de Pós-Graduação, UFPR, 2025). Também atua como colagista, ilustrando capas de livros e textos literários, e ministra oficinas de escrita e colagem.
Serviço
Livro: Foi um jeito de derreter – Jessica Stori
Editora: Telaranha
Número de páginas: 112



