Agenda do Impossível: escritor lança terceira obra com ensaios e micronarrativas

Manu Zambon
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Gabriel Soares
Foto: Divulgação

O escritor e músico Gabriel Soares, 41 anos, acaba de lançar sua terceira obra, intitulada Agenda do Impossível, pela editora Zain. Lançado em junho na Feira do Livro, na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo (SP), o título é uma espécie de autobiografia ativa, como ele mesmo define. 

A obra, que integra o Cancioneiro Zain, coleção dedicada à ficção escrita por músicos-escritores, está disponível em livrarias físicas e virtuais. No livro, Gabriel traz ensaios, micronarrativas e reflexões construídas ao longo de cerca de cinco anos, como uma “tentativa de escrever a própria vida, não apenas sobre a própria vida”. 

Gabriel é de Birigui e atualmente reside em São Paulo; é fundador da banda de indie rock Atalhos, e autor dos livros As madeleines das freiras (2015) e Cidade pequena (2018). Em entrevista para o LiterAll, ele dá detalhes sobre a nova obra, além de falar de suas influências na literatura, a convivência entre a música e as palavras e processo de escrita. 

Confira o vídeo completo no canal no Youtube

Você transita entre música, literatura e jornalismo. Que tipo de artista você acredita ser?

Eu me considero um artista independente. Com a banda Atalhos, construí uma trajetória fora do mainstream. Hoje conseguimos lançar discos de vinil por um selo de Barcelona, mas sempre dentro de uma lógica independente. Na literatura aconteceu algo parecido. Sempre tive uma relação muito forte com os livros. Depois de me formar em Jornalismo, tive uma livraria em Birigui durante alguns anos, então essa conexão sempre existiu.

O fato de eu ser músico acabou aproximando meu trabalho da Editora Zain, que criou uma coleção voltada justamente para livros escritos por músicos. Foi uma combinação natural entre duas áreas que sempre caminharam juntas na minha vida.

O lançamento aconteceu durante a Feira do Livro de São Paulo. Como foi viver esse momento?

Foi muito especial. No ano anterior eu tinha ido à feira apenas como leitor. Caminhar entre as editoras, descobrir livros e conversar com pessoas sempre foi algo que me entusiasma.

A publicação surgiu, em parte, graças ao tradutor Sérgio Molina, que foi um dos primeiros leitores do manuscrito e fez a ponte com a editora. Conseguir lançar o livro justamente na Feira do Livro foi uma experiência marcante. Além de participar da programação, eu estava cercado de autores que admiro desde a época da faculdade. Como escritor foi emocionante, mas como leitor também.

Foto: Divulgação
O livro é definido como uma coleção de aforismos e micronarrativas. De onde nasce o “impossível” do título?

A ideia nasce da reflexão sobre o absurdo da existência, muito influenciada por O Mito de Sísifo, de Albert Camus. A grande questão é: como viver sabendo que nossa existência é finita?

Para mim, o absurdo não conduz ao pessimismo. Pelo contrário. A resposta é uma postura afirmativa diante da vida. A existência talvez não tenha um sentido pré-determinado, mas podemos construir significado por meio das nossas escolhas. Essa perspectiva atravessa todo o livro.

Recentemente li uma resenha que definia a obra como uma “melancolia luminosa”. Gostei muito dessa expressão, porque ela traduz bem o espírito do livro.

Como foi o processo de escrita?

Foi um processo longo, de aproximadamente cinco anos de escrita e mais alguns até a publicação. Eu não comecei pensando em escrever um livro. Mantinha uma espécie de diário — embora eu nunca quisesse chamá-lo assim — em que registrava pensamentos, viagens, leituras, relacionamentos e acontecimentos do cotidiano.

Viajei muito pela América Latina nesse período e tudo isso foi entrando naturalmente na escrita. Quando percebi, aquelas anotações já tinham estrutura suficiente para formar um livro.

São fragmentos, aforismos, pequenas histórias e muitas referências literárias. A literatura sempre foi meu principal instrumento para compreender o mundo.

O livro tem um forte caráter autobiográfico?

Tem, mas não é uma autobiografia tradicional. Sempre que contamos uma lembrança, inevitavelmente reconstruímos essa memória. Por isso existe também um aspecto ficcional.

Gosto muito da literatura autobiográfica. Costumo lembrar uma frase da Simone de Beauvoir: “É impossível escrever sobre si mesmo sem iluminar a vida dos outros.” É exatamente essa ideia que me interessa. Quando um autor escreve honestamente sobre a própria experiência, acaba criando pontos de encontro com a experiência do leitor.

A literatura aparece constantemente na sua música. Como essas linguagens convivem?

Hoje elas são inseparáveis. Estou sempre lendo. Carrego um livro para qualquer lugar porque sei que sempre haverá alguns minutos disponíveis para a leitura.

Muitas vezes faço referências diretas nas músicas. O álbum mais recente da Atalhos, por exemplo, chama-se A Força das Coisas, em homenagem ao livro de Simone de Beauvoir.

Escrever também me ajuda a organizar as leituras. Às vezes estou lendo muito e preciso escrever para compreender melhor aquilo que absorvi. A música e a literatura acabam sendo duas formas diferentes de elaborar essas experiências.

Você morou na Argentina e no Chile. Como essas experiências influenciaram sua escrita?

Influenciaram completamente. Morei em Buenos Aires e em Santiago e viajei muito pela América Latina. Aprender espanhol abriu um universo enorme para mim, principalmente porque passei a ler muitos autores no idioma original e também livros que sequer possuem tradução para o português.

Essa convivência com outras culturas ampliou meu repertório e aparece tanto nas músicas quanto nos textos do livro.

Quais autores mais marcaram sua formação?

São muitos. Simone de Beauvoir é uma presença constante. Dostoiévski também me acompanha há muito tempo, principalmente pela atmosfera que cria em seus romances.

Gosto muito de Thomas Mann, Thomas Bernhard e Nietzsche, que é o filósofo ao qual sempre retorno. Ao mesmo tempo, procuro ler literatura contemporânea e alterno romances, filosofia e divulgação científica. Normalmente estou lendo três livros ao mesmo tempo.

Você costuma dizer que a literatura é um recurso existencial. O que isso significa?

Significa que ela realmente transforma a maneira como vivo. A literatura me ajuda a compreender situações, organizar pensamentos, escapar da realidade quando necessário e voltar para ela com outra perspectiva.

Durante a pandemia isso ficou muito evidente. Os livros foram uma forma de enfrentar o isolamento e de continuar viajando, mesmo dentro de casa.

Eu gosto do livro físico, do tempo mais lento da leitura. É completamente diferente da velocidade das telas. Depois de uma hora lendo, sinto que saio renovado. Nos dias em que não consigo ler, tenho a impressão de que o dia não rendeu.

A literatura, para mim, é exatamente isso: uma forma de pensar melhor, viver melhor e continuar encontrando sentido nas experiências do cotidiano.

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