Memórias Inesgotáveis: escritora lança livro na Flip 2026

Manu Zambon
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Foto: Thainá Oliveira

 “Recordar é compreender o que permaneceu dentro de nós”. A reflexão faz parte da obra Memórias Inesgotáveis, ensaio poético assinado pela escritora Brenda Rodrigues e que acaba de ser lançado pelo Selo Editorial Independente na Flip 2026 (Festa Literária Internacional de Paraty).
 
Em “Memórias Inesgotáveis”, Brenda, que também é editora, reúne escritos antigos e inéditos em edição definitiva sobre identidade e as marcas do tempo. O evento de lançamento ocorreu nesta quarta-feira (22/07), a partir das 12h, no Espaço do Coletivo Escreva, Garota!.
 
Brenda apresenta um compilado de seus escritos e percorre as fronteiras entre memória e identidade para construir um percurso de reflexão sobre recordações e amadurecimento. Ao longo de 140 páginas, a autora transforma fragmentos da própria trajetória em sensações universais, dialogando diretamente com a vida de quem a lê.

O livro é um convite a olhar para o que permanece vivo dentro de nós, mesmo após as mudanças causadas pela passagem do tempo, reforçando a premissa de que nenhuma experiência humana é puramente individual.

Brenda é escritora, editora e administradora de empresas; reside em São Paulo (SP) e atua no mercado literário ajudando novos autores a transformarem manuscritos em livros reais. Como editora-chefe do Selo Editorial Independente, Brenda coordena todas as etapas de publicação, junto de sua equipe — desde a leitura crítica até o design final —, sempre com o cuidado de preservar a essência e a voz de cada escritor.

Ao LiterAll, Brenda falou sobre a publicação, memórias e suas expectativas com o lançamento em Paraty.

Confira a entrevista na íntegra:
 
Brenda, você já havia publicado outras obras antes, certo? Você, que atua no mercado literário ajudando novos autores a transformarem manuscritos em livros reais, como se sente estando do outro lado, lançando uma obra sua?

Eu já publiquei quatro livros antes, mas eles pertencem a momentos muito diferentes da minha trajetória. Com o tempo, percebi que aquelas edições já não faziam jus à autora que me tornei e, sem grandes dramas, decidi retirá-los de circulação. “Memórias Inesgotáveis” é o meu verdadeiro ponto de partida, ou de chegada, dependendo de como você olha. Estar do outro lado da mesa é um exercício de humildade. Como editora, eu gerencio a ansiedade dos autores; como escritora, agora sou eu quem precisa respirar fundo para não roer as unhas. Isso me deu uma empatia cirúrgica com o frio na barriga de quem me entrega um manuscrito.

No livro, você reescreveu textos antigos e também produziu novos textos, abrangendo sua experiência de vida entre 14 e 30 anos. Como foi organizar tantas memórias e histórias? Como foi esse processo para você?

Foi uma terapia intensiva sem direito a reembolso. Revisitar quem eu fui exigiu coragem. Teve texto que deixei intocado; outros precisei reescrever porque aquela Brenda que os escreveu simplesmente já não existe. O livro não é uma biografia certinha e linear; a memória não funciona em linha reta. Ele parte dos sentimentos. Voltar a essas emoções depois de adulta foi como me assistir de camarote, de cima. Foi gratificante, claro, mas ligeiramente caótico para o emocional. Mas eu gosto (risos).

No seu livro, há uma menção sobre as fronteiras que habitam a memória e identidade. O que são essas fronteiras para você?

A memória é uma péssima historiadora, ela edita os fatos o tempo todo. Nós mudamos a forma de interpretar o que vivemos conforme envelhecemos, ou amadurecemos (para soar mais amadurecido). Quando falo de fronteiras, refiro-me ao exato momento em que uma lembrança deixa de ser só um fantasma no armário e passa a ditar quem você é hoje. “Memórias Inesgotáveis” é um convite para o leitor fazer as pazes (ou brigar de vez) com o próprio passado. Ser alguém, inevitavelmente, é inesgotável. Só deixa de ser se não houver personalidade de enfrentamento. Aí sim, tudo vira algo monótono e entediante.

Conforme você disse, a memória não é linear. Como foi para você resgatar essas memórias em meio a essa inexatidão? Você precisou fazer alguma mudança em alguma coisa relatada, por você enxergar de outra maneira, atualmente, ou por ter sido uma história diferente do que você contou?

Toda memória passa por um filtro altamente seletivo. Os fatos são estáticos, mas a nossa cabeça é dinâmica. Eu não tentei corrigir o meu passado, porque isso seria covardia literária. Eu preferi dialogar com ele. Foi um exercício divertidíssimo pegar ideias que nasceram, principalmente, na minha mente adolescente e dar um banho de lojacom o rigor da minha versão editora adulta (risos).

Quando você resgatou esses textos da época da sua adolescência, e começou todo o processo de seleção e reescrita, qual foi o seu sentimento? Qual Brenda você encontrou nessas palavras?

Encontrei uma Brenda que sofria por absolutamente tudo, intensa, curiosa e deliciosamente ingênua. Confesso que dei boas risadas de canto de boca relendo algumas coisas. O jovem tem uma tendência quase teatral ao drama, mas há uma lucidez cortante nessa intensidade que eu não quis apagar. Decidi manter alguns exageros porque são originais. Gosto de rir de mim mesma e a escrita me dá esse passe livre para me despir. Até porque a literatura sempre se mistura com a ficção, o que torna a exposição muito mais divertida e protegida. No fim, vi que ainda tenho algumas mesmas dúvidas da adolescência. A diferença é que hoje tenho o repertório e sofisticação de aceitar que nem tudo tem resposta. E na maioria das vezes nem tenho tempo, deixo mesmo de lado.

Por falar nessa Brenda de antes. Quais diferenças e semelhanças você conseguiu notar na Brenda de antes e na Brenda de hoje, nesses escritos?

A essência é teimosa, continua a mesma: observadora, curiosa e totalmente dependente da escrita para processar a vida. O que mudou foi a digestão. A Brenda do passado engolia o mundo e sentia tudo na garganta; a de hoje sente com a mesma força, mas aprendeu a transformar o caos em reflexão crítica. Antes eu escrevia para tentar entender o mundo. Hoje, escrevo para dialogar com ele.

Quem ou o que te inspira na literatura? Algum livro, poeta, escritor ou escritora? Por quê?

Meu trabalho como editora e administradora me obriga a ser uma leitora promíscua, eu leio de tudo. Mas F. Scott Fitzgerald é minha paixão antiga, o jeito dele de retratar a decadência me fascina. Também divido a mesa com Clarice Lispector, Hermann Hesse e Tolkien. Na poesia, sou devota do ritmo e da síntese de Drummond e Cecília Meireles. Mas a minha maior musa inspiradora continua sendo a pura e imprevisível experiência humana. Os clássicos são ótimos professores, mas a vida real é quem dita o enredo no meu Word.

Finalizando, fala um pouco das suas expectativas com esse lançamento em Paraty, durante a Flip. Você já havia participado do festival? É a sua primeira vez?

Minhas expectativas são as melhores possíveis. Soube que a cachaça artesanal rola solta em Paraty, o que já me anima bastante. Honestamente, 90% do meu motivo de ir é esse; o lançamento do livro é quase um coadjuvante de luxo. Brincadeiras à parte, a Flip é o epicentro do nosso mercado e estrear lá como autora tem um sabor muito particular. O ápice da ironia é que eu nunca pisei em Paraty. Já devo ter cruzado o eixo Rio-São Paulo umas vinte vezes, mas de alguma forma consegui ignorar a cidade histórica até agora. Lançar “Memórias Inesgotáveis” ali, anos depois de ter publicado na finada Livraria Saraiva e passado tanto tempo operando apenas nos bastidores editoriais, é o meu marco zero oficial. Viver isso nas minhas férias, muito bem acompanhada por um coletivo de mulheres incríveis, é um baita privilégio. E quer saber? Por ser a minha primeira vez, vai ser interessante até se o lançamento flopar. Ninguém ali me conhece mesmo. Sinto-me pronta para qualquer um dos cenários.

Arte da capa: Brenda Rodrigues & Alysson Caetano

Serviço
Memórias Inesgotáveis – Brenda Rodrigues
Selo Editorial Independente
Páginas: 140
Lançamento: 22/07 a partir das 12h

 
 

 

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