No meio do caminho, tinha um livro. E, muitas vezes, essas obras vinham sobre duas rodas. Criada em 2008 pelo poeta Robinson Padial, conhecido como Binho, a Bicicloteca é um projeto de incentivo à leitura que nasceu para aproximar pessoas da literatura.
Por meio da iniciativas, Binho transforma espaços cotidianos, como pontos de ônibus do bairro Campo Limpo, em locais de trocas, conexões, sorrisos e esperança de que muitos leitores podem surgir desse encontro.
Hoje, a iniciativa segue ativa e conta com a colaboração da agente cultural Patrícia Gonçalves, mantendo viva a proposta original: distribuir gratuitamente livros, gibis, revistas em quadrinhos e poesias para quem cruza o caminho da bicicleta carregada de histórias.
O começo
Antes de tudo, a história da Bicicloteca passa pela trajetória de Binho e sua esposa, Suzi de Aguiar Soares. Juntos, eles abriram um bar na zona sul de São Paulo. O local se transformou em ponto de encontro de artistas e deu origem ao tradicional Sarau do Binho, realizado semanalmente há mais de duas décadas.
A ideia da Bicicloteca surgiu durante uma caminhada por algumas cidades brasileiras, com a presença de alguns colegas artistas . A expedição percorreu cidades, quilombos e aldeias, promovendo saraus em praças públicas.
Foi em Mongaguá, no litoral paulista, que a bicicleta entrou na história. Comprada por apenas R$ 39, ela foi adaptada para carregar livros e servir como ferramenta de aproximação com o público. A estratégia era simples: convidar as pessoas para os saraus oferecendo literatura.
Livros gratuitos e circulação pelas periferias
O que começou como solução prática virou símbolo do projeto. De volta à capital, a iniciativa ganhou fôlego com apoio do Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo e, mais tarde, do ProAC (Programa de Ação Cultural). A Bicicloteca é contemplada pelo edital de fomento à cultura da periferia, da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo.
Com apoio, Binho conseguiu colocar nas ruas duas bicicletas, que passaram a circular pela região do Campo Limpo, estacionando em pontos de ônibus com a mensagem: “Doamos Livros”. Qualquer pessoa pode pegar um livro e levar para casa. O programa também aceita doações. Com o tempo, o projeto passou ainda a atender escolas, praças e até entregas sob demanda na casa de leitores.
Mais do que números ou estatísticas, o impacto da Bicicloteca se mede em histórias. Binho conta que sua maior satisfação está no encontro inesperado. Ele cita a história de um senhor de 90 anos que saiu feliz carregando dois dicionários.
A proposta também dialoga com uma realidade histórica da região: o acesso limitado a livros. “Quando eu era menino, precisava andar cerca de 10 quilômetros para ter acesso a um livro”, relembra.
Desafios
Entre as principais dificuldades do projeto estão o tempo disponível para circular com a bicicleta e a necessidade constante de arrecadar novos títulos. Ainda assim, a Bicicloteca resiste, com apoio institucional ou independente da própria comunidade.
A casa de Binho, inclusive, se tornou extensão do projeto: uma garagem tomada por livros, pronta para alimentar novas viagens literárias.
Ao longo dos anos, a Bicicloteca se consolidou como uma ação simples, mas potente, de democratização do acesso à leitura. Ao ocupar ruas, pontos de ônibus e escolas, o projeto rompe com a ideia tradicional de biblioteca e transforma o cotidiano em território literário.


